segunda-feira, 12 de junho de 2017

Superando o fim de um relacionamento com um canalha


Sabe o que mais revolta uma mulher no fim de um relacionamento com um canalha? No início, é o fim em si. É aceitar que não terá mais. E que outra ocupará o seu lugar logo logo (isso se já não ocupou). É perder aquele beijo, aquele abraço, aquele corpo que era “seu”. No início o que mais incomoda é a mudança brusca de algo que você já tinha se acostumado. Amando ainda a pessoa ou não, mas se acostumado a ela, certamente. Sair da zona de conforto é um desafio para todo ser humano, por isso fins de relacionamentos são sempre dolorosos, por pior que o relacionamento tenha sido. Logicamente quanto mais tempo mais difícil é, mas não depende somente disso. Depende muito da intensidade da pessoa. Amor e sentimento de posse se misturam e/ou se confundem (muitas vezes é só posse mesmo, mas acreditamos piamente ser amor). Isso é muito comum, pois fomos ensinadas que se você ama tem que fazer mil coisas pela pessoa: cuidar, respeitar, abrir mão, agradar... A posse vem seguida da expectativa, afinal se você faz de tudo pelo outro, espera que ele retribua na mesma proporção. Acontece que nem sempre (aliás, quase nunca) o que esperamos do outro é o que ele pode/quer nos dar e vice versa.

Depois que passa essa fase bem fossa do “não consigo viver sem ele” você começa a cansar de sofrer tanto. Embora talvez não quisesse muito, continua viva. E o que mais entristece e revolta é pensar em quanto tempo você perdeu num relacionamento bosta. Porque quando acaba, muitas vezes, já estava “acabando” há certo tempo. Talvez já tivesse até acabado algumas vezes ou nunca “foi” de fato (só nas ilusões da sua cabeça). Mas o “amor” é a desculpa pra todas as burrices. E quando de fato acaba você vê o quanto perdeu tempo. E não é só tempo. Você desperdiçou carinho com quem não merecia, você chorou por quem não estava nem aí, você se humilhou por quem não te valorizou, você abriu mão de tanta coisa pra lutar por alguém que por escolha própria preferiu (ou não se importou em) viver sem você. Você se sente burra, idiota, usada. E as vezes você foi mesmo. E admitir isso pra si mesma é foda.

Ainda tem o detalhe de pensar que o outro já superou “e eu tô aqui ainda na merda”. Isso faz nos sentirmos ainda mais idiotas... E isso dá tristeza, que faz a gente sofrer... Por quem? Por quem não merece, o que faz nos sentirmos burras... É um ciclo vicioso. Que só para quando a gente REALMENTE cansa de sofrer. Quando você para de se fazer de vítima pra si mesmo e pros outros.
Tem uma hora que você tem que falar um FODA-SE bem grande pra sociedade! “FODA-SE se meu ex já está com outra!” “FODA-SE se todos a minha volta estão namorando!”“FODA-SE se não tenho companhia pra hoje a noite!” Nada dura pra sempre, nem mesmo o sofrimento que parece muito que vai durar... Ainda mais quando é um sofrimento irracional. Um conselho que eu daria: permita-se sofrer um pouco, tenha o seu momento de luto, curta sua fossa. Mas saiba o seu momento de cansar dela e de seguir em frente. Acredito que cada pessoa tem o seu tempo, mas quem define isso é você. É você que tem que sair da posição de vítima e tomar de novo as rédeas da sua vida.

Não acredito nem acho saudável quem termina um relacionamento importante e está todo dia na balada. Acho mentiroso para si mesmo. A pessoa está lá não porque superou, mas porque quer mostrar para os outros que superou, mas quando está sozinha em casa desaba em choros e solidão... Do que adianta? Não se trata do que você passa para os outros, do que pensam sobre você. Que se foda! O que importa é o que você sente, o que você está passando. Se você for feita de carne, osso e sentimentos, vai sofrer como qualquer mortal, se enganando ou não quanto a isso... Mas além de carne, osso e sentimentos você tem cérebro também. Não importa quanto tempo tenha ficado mergulhado na alto-enganação, só depende de você sair. E sabe por que e por quem? Por VOCÊ! Exclusivamente por você. Se amar é importante. Quando ficamos muito tempo em relacionamentos abusivos, acabamos depositando no outro a responsabilidade por nos amar. Está errado! Quem tem que nos amar somos nós mesmas! Outra pessoa pode nos amar também, mas isso é consequência...

Não quer dizer que você não deva sair e se divertir. É óbvio que deve! Só estou dizendo que existe momento para tudo: para chorar, comer chocolate e desabafar com as amigas e momento para sair, beber, espairecer... O que não é saudável é mentir para si mesma que tá tudo bem quando ainda não está, é fazer uma coisa para mostrar para o mundo sendo que não é o que você queria verdadeiramente fazer...

Você vai ficar chata, vai alugar o ouvido dos amigos sim e tudo bem... Se for religiosa vai ficar apelando pra Deus em frases no facebook. Mas nada disso resolve. Traz alívio momentâneo, mas NINGUÉM vai te tirar da fossa, ninguém vai fazer nada por você. Você que tem que parar de ter pena de você mesma e aceitar. Seu príncipe virou sapo (aliás, nunca deixou de ser sapo) e a vida continua, você querendo ou não. Você fez planos que não se concretizaram, mas e daí? Você se livrou foi de um traste!

E a vida vai seguindo, dia após dia. E ela não tem que ter uma razão, um propósito. Ela só tem que ser vivida. Talvez não seja tão agradável, mas está aí, é o que tem. Ocupe-a, sempre que possível, com coisas que você goste. Porque 80% da sua vida você já vai ter que ocupar com obrigações: trabalho, estudos, cuidados com a casa, organização... Então quando puder faça algo que goste, seja o que for. Sim, com o tempo as coisas que você gosta vão voltando a ter graça novamente: ler, escrever, ver filmes, ficar em casa jogada no sofá, conversar, flertar, sair, comer, dormir, dançar, beber, transar... Enfim, não interessa. Faça o que você estiver a fim de fazer, sem culpa. Não se sinta obrigada a fazer algo que faça sentido para os outros. Não faça nada pra agradar ou para desagradar ninguém. Só faça o que estiver afim, sempre que possível. Permita-se matar as vontades e realizar os desejos. Você é uma mulher, não um robô programado. Aliás, isso vale para a vida toda.

Uma hora um relacionamento legal pode aparecer na sua vida. Ou não. Mas de qualquer forma, não procure desesperadamente. A regra da vida parece ser essa: não procure nada. Exceto emprego, esse não tem jeito, tem que procurar. Fora isso, deixe acontecer. As melhores amizades e relacionamentos acontecem por acaso... Do nada você conhece alguém que muda sua vida. Claro, use sua experiência adquirida em alguma coisa. Não deposite no outro todas a expectativas de ser feliz. Até porque ser feliz o tempo todo não é uma obrigação. Sair todo fim de semana não é uma obrigação. Ter muitos amigos não é uma obrigação. Ter um namorado não é uma obrigação. Casar e ter filhos não é obrigação. E nada disso precisa ter a ver com ser feliz ou não, mas que também (como eu já disse), não é uma obrigação.

P.S.: texto antigo e editado

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Casa de mãe _Sensação de (não) pertencimento

"Eu não tenho casa
Eu moro em casa de mãe
Casa de mãe é bom
Mas é casa de mãe

Eu não tenho casa
Eu moro em casa de mãe
E quando querem meu chamego
Não dá, por causa de mãe

(...)

Um dia vou ter minha casa
Vai ser a coisa mais linda
Com gravuras de Oxossi, Ogum e Mãe menininha"


Chega um momento na vida da gente que a vontade de ter a sua casa, seu canto, se torna evidente. Por diversos motivos: falta de liberdade, de privacidade, de espaço, de autonomia, de silêncio, excesso de cobranças, de exigências, de regras, de zelo... Sentimos que a casa dos pais (ou de mãe, como diz meu querido Criolo) não é nossa casa. De fato não é, nunca foi, mas é como se só a partir desse ponto começássemos a enxergar e, consequentemente, a nos incomodar com isso. Experimentamos uma nítida sensação de não pertencimento ao ambiente, que a cada implicância, discussão ou simples reclamação, vai se tornando maior. Ao nos tornarmos adultos certas regras de infâncias passam a não fazer mais sentido. Que mal tem em "esquecer" de arrumar a cama de vez em quando, se ninguém vai entrar no quarto mesmo? Que diferença faz chegar trinta minutos antes ou depois da hora combinada? Além disso passamos a perceber nossos pais como pessoas que eles são, não apenas como pais.  

Sem contar a impossibilidade de ficar sozinho. Não sei vocês, mas eu adoro e preciso ficar sozinha. Quando não posso fazê-lo sinto muita falta. Tem dias que você simplesmente não está a fim de ver ninguém, nem falar com ninguém, quer apenas ficar a sós com seus pensamentos. Mas "em casa de mãe" se você se tranca no quarto não demora para alguém bater e perguntar se está tudo bem... No meu caso, as vezes o isolamento dura dias, então logo já levanta suspeita de doença, ou algo do tipo... rs

Quando finalmente conseguimos nossa independência financeira e nos mudamos para um cantinho só nosso, é um alívio. Aumentam as responsabilidades mas vale a pena. Basicamente você não pode esquecer de pagar as contas na data certa e de colocar o lixo para fora nos dias que o caminhão passa. Também tem que comprar comida, não muito para não estragar e nem tão pouco para não ter que ir no mercado muitas vezes. De resto, você faz as próprias regras. Não tem "dia da faxina" ou "almoço de domingo". Além da casa sujar bem menos pois é só você, ninguém vai ver a bagunça (claro que essa regra muda quando você vai receber visitas rs). As refeições são feitas não de acordo com o horário de Brasília, mas sim de seu relógio biológico. Tudo está liberado: pizza no café da manhã, almoço as quatro da tarde, lanche as três da manhã... 

Aí alguns irão perguntar: você não sente falta da comida da mamãe? Sim, a gente sente. Não só disso, mas também do cheirinho dela pela casa, mesmo ela tendo saído antes de você acordar; De deixar o guarda roupa todo revirado por pressa de sair, deixar para arrumar depois e se surpreender que "alguém" já arrumou tudo; de chegar em casa e ter para quem contar algo engraçado que viu na rua; de chegar triste e ter um colinho... mesmo que esse "colo" seja apenas o conforto de sua presença, sem falar nenhuma palavra...

Mas quando temos o nosso cantinho não perdemos nada disso, pelo contrário: aprendemos a valorizar... Quando não moramos mais com os pais e vamos visitá-los percebemos como aquele lar será sempre "a nossa casa". Meio confuso, mas é assim mesmo: a percepção muda completamente. Se antes a sensação era de não pertencimento, de intruso, agora se inverte, passa a ser de total pertencimento afetivo àquele lar. Digo "lar" pois a casa pode até mudar, mas onde quer que esteja a família, aquele será sempre o "nosso lugar". Você pode rodar o mundo, morar em outro país anos e anos, viver viajando, ser um cidadão do mundo... Pode amar sua casa que você fez do seu jeito, com suas coisas e preferências... Mas se há um lugar no mundo em que você sente que pode sempre voltar aconteça o que acontecer... Se há um porto seguro, um habitat natural, esse lugar é casa de mãe.




PS.: Escrevi esse texto há mais de um ano, enquanto estava morando sozinha. Há uns meses voltei pra "casa de mãe". Recentemente descobri que já inventaram um nome pra isso: Geração Bumerangue kkkk...  Agora só de pensar em sair novamente (o que acontecerá em breve), já dá um apertinho no coração... A vida tem dessas coisas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Pessoas tóxicas



Com certeza você já ouviu falar de pessoas tóxicas. São aquelas que de tão negativas afetam não apenas a si mesmas mas também quem está perto. Conviver com elas gera desgaste emocional, pois são verdadeiros sugadores de energia. Nem sempre a pessoa o faz de propósito, aliás, geralmente ela nem sabe que é tóxica. Mas isso não muda o fato delas serem prejudiciais, principalmente aos mais próximos.
Existem aqueles tóxicos clássicos, como o ex (ou atual) abusivo, o chefe que tem prazer em humilhar seus funcionários, aquela tia que sempre te pergunta quando você vai arrumar um namorado (quando você namora pergunta quando vai casar, quando casa pergunta quando vai ter filho, etc...), o pessimista que vê defeito em tudo, o fofoqueiro que fala mal de todo mundo, o mentiroso compulsivo, o falso que se finge de bonzinho...
Esses não são tão perigosos pois é fácil identificá-los. Sua energia negativa é quase palpável. Porém, existem aqueles que nem desconfiamos mas que acabam fazendo a gente desperdiçar uma energia danada, sem se dar conta. 
Sabe aquele amigo de infância que você não vê há anos e que te deixa todo ansioso para reencontrar, mas aí quando acontece você percebe que a pessoa se tornou um total estranho e vocês não tem mais nada em comum? É frustrante se dar conta que uma amizade (ou um amor) que já foi tão importante na sua vida um dia morreu. Mas acontece, pois as pessoas mudam e nem sempre seguimos por caminhos parecidos. Acontece que em situações como essa muitas vezes não aceitamos o fim, não deixamos a pessoa ir, seguir seu rumo longe da gente, tentamos de alguma forma fazer aquela amizade renascer dentro de nós mesmos e do outro. Outras vezes é o outro que não larga o osso e nos vemos naquela situação forçada e desconfortável, sem saber como sair. Afinal, como simplesmente virar as costas para alguém que nos ajudou muito? Ou como aceitar que quem amamos não nos ama mais?
Por mais que nossa intuição nos avise que aquilo não vai dar certo, a culpa nos convence de que devemos dar mais uma chance àquela pessoa. Afinal, se ela me procurou é porque gosta de mim e sentiu minha falta, certo? Que tipo de ser humano terrível eu seria se não fizesse um esforço? A verdade é que nem sempre alguém que reaparece do passado o faz porque gosta realmente de nós. As vezes as pessoas o fazem por pura curiosidade ou pior, por inveja.
Sim, é triste admitir isso, parece prepotência, mas não é. As redes sociais viraram um tipo de competição de quem tem a vida mais divertida e feliz. Quem viaja mais, quem sai mais nos fins de semana, quem fica mais bonito nas selfies, quem come as coisas mais gostosas... É natural que quando nossa vida não está muito interessante a gente acabe sentindo inveja de quem aparenta estar vivendo uma situação melhor que a nossa. Eu disse "aparenta" pois nem sempre o que parece é, ainda mais nas redes sociais. Daí bate uma curiosidade de saber se aquela suposta felicidade é real, onde está o ponto fraco daquela pessoa, não é possível que não tenha um defeito... E muitas vezes é esse sentimento meio mesquinho, porém totalmente humano, que motiva a mandar o primeiro "oi". Não é saudade, nem tampouco preocupação. Ou talvez seja um misto de tudo isso. A questão é que geralmente nem a própria pessoa reconhece pra si mesma que tem inveja. E daí para o outro perceber isso também não é tão simples. Perde-se muito tempo e energia tentando ser cordial com quem na verdade está apenas tentando se sentir melhor procurando pelos seus defeitos e fraquezas. Muitas vezes, tentando até mesmo te sabotar (consciente ou inconscientemente).
Mas como perceber e evitar pessoas assim? Se culpando menos e ficando mais atento aos sinais: a culpa nos deixa meio cegos, acabamos fingindo que não vemos o que está diante de nossos olhos. Basta reparar em como a pessoa te trata. Ela demonstra indiferença? Só te procura quando precisa? Te condena ao invés de tentar te entender? Você sente sinais de falsidade? Ela combina coisas com você e te dá bolo ou desiste em cima da hora, te deixando na mão? Não se interessa por nenhum assunto que você goste? Vive falando mal dos outros pra você? Se faz de vítima? Problematiza tudo que você fala? As conversas acabam virando sempre discussões? Te critica muito? É muito irônica e\ou sínica? Demonstra frieza e\ou se diverte com seus problemas? Gosta de falar mas não de te ouvir? Você sente que depois de conversas com ela perde a paz, fica nervoso ou cansado? Tudo isso são indícios de que essa pessoa não está te fazendo bem.
É interessante se colocar no lugar do outro e analisar as próprias atitudes para ver se não estamos sendo também pessoas tóxicas. As vezes tendemos a ser esponjas, absorvendo toda a negatividade, outras acabamos sendo espelhos, refletindo comportamentos ruins. O melhor é se afastar daqueles que nos fazem mal e tentar não ser como eles. Afinal, a pessoa que é assim sofre. É importante aprender a deixar ir: tudo que quer ir, tudo que não acrescenta, tudo que nos faz mal, tudo que nos atrasa, tudo que nos tira a paz. Pensar primeiramente em si mesmo não é egoísmo, é amor próprio.


sábado, 17 de setembro de 2016

Amora

Sobre a morte de Domingos Montagner num rio em Canindé de São Francisco, no Sergipe, os índios que gravaram cenas com o ator em "Velho Chico" disseram:



"Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo, hoje, se tornou um novo protetor do rio São Francisco, que estava tão esquecido, porque esse rio não pode morrer. A novela contou mistérios do rio e esse foi mais um desses. Mas ele se tornou um ser de luz, pois a água não tira a vida, dá a vida e fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, se despediu do corpo e da alma, nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos irão entender isso, então temos que fazer um ritual para que os brancos entendam, que ele está bem, que ele, agora, é um protetor do rio São Francisco."

Em 2014 a conheci. Eu trabalhava acompanhando uma obra dentro de um ceasa. Minha equipe estava fazendo concreto e ela ficava correndo atrás de um e de outro, como se aquilo tudo fosse uma grande brincadeira. Estava visivelmente perdida e pedindo atenção, mas parecia invisível. Pra eles, mas eu a vi. Depois passei a lhe dar água e ela passou a me seguir onde eu fosse. Menos ao prédio de manutenção e ao administrativo. É que essas áreas já tinham donos. Eram duas matilhas bem definidas, cada uma ocupava os arredores de seu respectivo prédio. Nenhum invadia a área dos demais, mas o espaço (enorme) que separa os dois prédios era livre. E por esse espaço ela transitava, me seguia, brincava... Como eu já conhecia cada morador de lá, sempre soube que ela havia sido abandonada ali naquele dia. No entanto, ela não era triste (ou pelo menos não demonstrava). Ela também não era de rua, estava a procura de um amigo humano para lhe amar e lhe dar um novo lar. E assim ela foi me cativando. Acho que no segundo dia descobrimos que ela gostava de brincar de pegar "bolinha" (na verdade jogávamos uma batata que havia sobrado da feira e estava no chão). Foi quando me perguntaram se eu ia levá-la pra casa e me surpreendi dizendo: "Sim!" Não tinha coleira, nem mesmo um pedaço de corda que eu pudesse amarrá-la, nem dava para levá-la no colo pois não era tão pequena assim, e tínhamos belos 30 minutos de caminhada pela frente, com direito a subidas de morro e tudo... Então eu a chamei: "Vem! Vamos pra casa!" E ela foi, andando ao meu lado o caminho inteiro, sem fugir pra lugar nenhum. Quase chegando em casa tinha um pet shop, já estava anoitecendo, mas felizmente o moço que dava banho ainda estava lá e atendeu meu pedido de bom grado, apesar do horário. Compramos ração, coleira, essas coisas todas, e fomos para casa felizes e cheirosa (no caso ela). Ela adorou o colchão que ficava na sala e que antes costumava ser meu "sofá", tanto que imediatamente passou a ser sua cama. Muitas confusões se passaram: desde chinelos destruídos à lixo do banheiro rasgado encima da minha cama; brigas entre eu e meu ex que ela entrava no meio pra separar (inclusive chegou a ficar doente uma vez de tristeza); várias fugidinhas, pois amava correr e era obrigada a viver em uma kitnet; vários lixos dos vizinhos rasgados, pois ela não gostava muito da dieta que se resumia à ração, queria variar o cardápio; muito pelo pela casa toda (TODA mesmo, tinha pelo dela até na minha alma)... E ela era de opinião, personalidade forte. Não abaixava cabeça pra ninguém, nem mesmo pra mim! Falava muito e reclamava!!! Mas sempre com razão, devo admitir. Quando eu demorava pra voltar então? Era obrigada a ouvir um sermão... Mas também era muito amor. Um amor desesperadamente apaixonado por mim. Tudo se resolvia com um passeio no parque. Lá ela se realizava: corria como um foguete e fazia amigos. Não tinha um cão que ela não convidasse à brincar: não se importava se fosse de rua ou de raça, contagiava a todos, fazia os donos soltarem as guias e todos corriam livremente pela grama... Parecia mágica. Parecia não, ela era mágica. Não atoa me cativou, cativava a todos. Velhos, adultos, crianças e cachorros, não havia quem não parasse para olhar e comentar: "Como ela corre!" (no caso os cães comentavam com os olhos atentos e as orelhas em pé, tal como o rabo). Eu tenho consciência que não fui a melhor mãe. Passeei menos do que ela precisava, brinquei menos do que ela gostaria, dei menos banhos que devia e certamente a deixei muitas vezes sozinha. Ela por sua vez, me fez companhia nos momentos em que mais precisei. Compartilhou comigo os momentos mais difíceis e solitários que passei na vida. E momentos bons também. Me deu muitas alegrias, arrancou de mim muitas risadas, mesmo quando a vida não estava sendo fácil. Me fez sair da cama várias vezes (quando nada mais faria), nem que fosse para levá-la pra fazer xixi/cocô. Me deu muito amor e carinho e me lembrou o significado do amor verdadeiro, amizade, lealdade... Foi minha companheira, quando todos os outros que me amavam estavam longe. Viajou por horas dentro de um caminhão de mudança por mim. Fez amizades com seus irmãos, que até então não conhecia. Se adaptou à matilha e aceitou na boa dividir a mãe. Ganhou um novo lar com um quintal grandão pra correr, e correu, correu muito. Até que um dia ela se foi. Se por maldade humana ou acidente, nunca saberemos. Mas mesmo fraca ela me esperou. Esperou eu chegar em casa. Então eu a pedi, implorei, para que não fosse, esperasse eu levá-la ao médico. E assim o fez, resistiu bravamente por todo o caminho, apesar da dor intensa que estava sentindo. Chegando na clínica ela se foi, mas sei que se esforçou até o último segundo pra não me deixar... Seu último suspiro aconteceu quando a coloquei na mesa do médico, ou seja, quando saiu dos meus braços.
Seu nome era Amora. Quando nos conhecemos era época da fruta, todas as amoreiras do ceasa estavam carregadas. É um nome divertido, alegre e que remonta à amor no feminino. Mas na verdade, sem eu saber, escolhi esse nome por causa de uma amiga muito querida que tive na infância: uma amoreira enorme que vivia carregada e morava no meu quintal. Eu vivia trepada em cima dela, comendo amora do pé... Meus pés viviam roxos pois era tanta amora no chão que a gente acabava pisando (eu vivia descalça), que por mais que esfregasse não saía no banho. Debaixo de sua sombra eu brincava com meu irmão e primos. Mas quando meus pais ampliaram nossa casa ela foi cortada. Existia outro pé de amora no quintal, mas esse sempre foi mais tímido, meio sem vida. Este permaneceu mas nunca deu muitos frutos como a outra. Quando a Amora se foi, fiz questão de enterrar seu corpinho no pé dessa amoreira. Isso foi em abril. Esse ano, apesar da seca, a minha amoreira está carregada como nunca! Já chorei muito e praguejei, não entendia o porque dela ter ido tão nova, justamente quando estava sendo feliz e tento espaço pra brincar como sempre quis! Ao colher uma amora do pé finalmente eu entendi, de repente a ficha caiu: ela não me deixou, foi sua força e alegria que encheram a árvore de frutos!
Amanhã, dia 18 de setembro de 2016 faz dois anos que adotei a Amora. Mas não tenho ideia de quanto tempo faz que ela me acompanha e cuida de mim (em espírito, em forma de árvore, de cachorro, etc...). Obrigada Amora. Te amo <3 <3

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Eu vi que não foi em vão e que tamo junta não é só uma frase"

Hoje, 14 de setembro de 2016 era pra ela estar completando 33 anos. Mas já faz mais de 5 que ela se foi. Não, ela não "se foi", ela foi tirada de nós, foi brutalmente e lentamente assassinada por essa sociedade hipócrita e mesquinha. Falo de Amy Jade Winehouse. Não foi só uma diva da música com um talento esplendoroso que perdemos. Foi a vida de uma mulher de um coração lindo, assim como tantas, todos os dias.












Aí você pode me perguntar mas o que a Amy tem a ver com isso? Ela não foi estuprada nem assassinada, ela morreu por causa das drogas... Pois é... É muito fácil jugar, apontar o dedo, sem se perguntar o que levou a pessoa a chegar àquele estado. É muito fácil se aproveitar da desgraça alheia para ganhar audiência. Difícil é se colocar no lugar do outro, difícil é ter compaixão pelo sofrimento alheio. Eu entendo o que ela passou. Ela era como eu, uma menina frágil, ingênua, que só queria ser amada e que não sabia se amar. Achava que o amor deveria vir de fora e não de dentro. Esperava por um príncipe encantado que viesse lhe dar sentido à vida. Quando pensou tê-lo encontrado fez de tudo para não perdê-lo. Se doou, se machucou, se humilhou... Sem saber que não precisava de nada disso, sem saber que merecia coisa melhor, sem saber que era maravilhosa...

A sociedade nos ensina que devemos ser esposas e mães. Nascemos para isso e devemos fazer de tudo para fisgar um boy. Somos doutrinadas desde criança a gostar de se arrumar, se maquiar, nossas bonecas já vem cheia de maquiagem, com peitões e sem celulite... Brincamos de casinha, cozinhadinha, mamãezinha... 

Somos cobradas o tempo todo quanto a nossa aparência. Se não se arruma é desleixada, se se arruma demais tá igual puta... Tem que ser magra, tem que ser branca, tem que ser bonita, tem que se maquiar, tem que, tem que, tem que... Tem que agradar ou nunca será amada. Nisso se foi nossa Amy, e não só ela... Quantas Amys, Marias, Geovanas, Letícias, Camilas, Déboras, e etc, etc, e etc morrem todos os dias por causa do MACHISMO?




Se um homem se sente no direito de tirar a vida de uma mulher só por ela ser mulher ou de estuprá-la é por causa do machismo. Mas não é só isso que mata nossas mulheres. A ditadura da beleza machista também mata (anorexia, bulimia, etc); a invisibilidade da mulher mata; a falta de oportunidades mata; a violência doméstica mata; a depressão (muitas vezes causada pelo que foi citado acima) mata; a solidão e desprezo matam; não se amar mata lentamente cada pedacinho da alma...

É por isso que hoje eu quero lembrá-la como um símbolo dessa luta que é o simples fato de nascer mulher...

Tem uma rapper muito foda chamada Lívia Cruz. Ela está sendo criticada por ter feito uma música inspirada em outra, uma resposta. Cara, é de foder! em pleno 2016 uns caras vão lá e fazem uma música escrotizando geral, chamando mulher de puta, interesseira e por aí vai, e quando uma mulher faz uma resposta foda pra caramba tem machinho que ainda acha ruim! Os caras estão com a cabeça onde? Pagando de rapper americano? Hello! Enquanto vocês estavam pirralhando titia Lívia já mandava as rima dela e arrasava! E olha que ela só tem 25 anos (minha idade ^^)! Ouçam a música dela "Eu tava lá" e o papo reto que ela mandou sobre a música lá no canal dela do youtube!



É isso aí, vai ter mulher no rap sim! Vai ter feminista sim! Vai ter mulher lutando por visibilidade sim! Vai ter esculacho de homem machista sim! Vai ter mulher na presidência sim! Vai ter mulher de shortinho sim! Vai ter de véu também! Vai ter topless sim! Vai ter lésbicas sim! Vai ter piriguete sim! Vai ter puta sim! Vai ter tudo que a gente quiser, porque lugar de mulher é onde ela quiser, não onde vocês nos colocaram até hoje!