sábado, 17 de setembro de 2016

Amora

Sobre a morte de Domingos Montagner num rio em Canindé de São Francisco, no Sergipe, os índios que gravaram cenas com o ator em "Velho Chico" disseram:



"Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo, hoje, se tornou um novo protetor do rio São Francisco, que estava tão esquecido, porque esse rio não pode morrer. A novela contou mistérios do rio e esse foi mais um desses. Mas ele se tornou um ser de luz, pois a água não tira a vida, dá a vida e fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, se despediu do corpo e da alma, nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos irão entender isso, então temos que fazer um ritual para que os brancos entendam, que ele está bem, que ele, agora, é um protetor do rio São Francisco."

Em 2014 a conheci. Eu trabalhava acompanhando uma obra dentro de um ceasa. Minha equipe estava fazendo concreto e ela ficava correndo atrás de um e de outro, como se aquilo tudo fosse uma grande brincadeira. Estava visivelmente perdida e pedindo atenção, mas parecia invisível. Pra eles, mas eu a vi. Depois passei a lhe dar água e ela passou a me seguir onde eu fosse. Menos ao prédio de manutenção e ao administrativo. É que essas áreas já tinham donos. Eram duas matilhas bem definidas, cada uma ocupava os arredores de seu respectivo prédio. Nenhum invadia a área dos demais, mas o espaço (enorme) que separa os dois prédios era livre. E por esse espaço ela transitava, me seguia, brincava... Como eu já conhecia cada morador de lá, sempre soube que ela havia sido abandonada ali naquele dia. No entanto, ela não era triste (ou pelo menos não demonstrava). Ela também não era de rua, estava a procura de um amigo humano para lhe amar e lhe dar um novo lar. E assim ela foi me cativando. Acho que no segundo dia descobrimos que ela gostava de brincar de pegar "bolinha" (na verdade jogávamos uma batata que havia sobrado da feira e estava no chão). Foi quando me perguntaram se eu ia levá-la pra casa e me surpreendi dizendo: "Sim!" Não tinha coleira, nem mesmo um pedaço de corda que eu pudesse amarrá-la, nem dava para levá-la no colo pois não era tão pequena assim, e tínhamos belos 30 minutos de caminhada pela frente, com direito a subidas de morro e tudo... Então eu a chamei: "Vem! Vamos pra casa!" E ela foi, andando ao meu lado o caminho inteiro, sem fugir pra lugar nenhum. Quase chegando em casa tinha um pet shop, já estava anoitecendo, mas felizmente o moço que dava banho ainda estava lá e atendeu meu pedido de bom grado, apesar do horário. Compramos ração, coleira, essas coisas todas, e fomos para casa felizes e cheirosa (no caso ela). Ela adorou o colchão que ficava na sala e que antes costumava ser meu "sofá", tanto que imediatamente passou a ser sua cama. Muitas confusões se passaram: desde chinelos destruídos à lixo do banheiro rasgado encima da minha cama; brigas entre eu e meu ex que ela entrava no meio pra separar (inclusive chegou a ficar doente uma vez de tristeza); várias fugidinhas, pois amava correr e era obrigada a viver em uma kitnet; vários lixos dos vizinhos rasgados, pois ela não gostava muito da dieta que se resumia à ração, queria variar o cardápio; muito pelo pela casa toda (TODA mesmo, tinha pelo dela até na minha alma)... E ela era de opinião, personalidade forte. Não abaixava cabeça pra ninguém, nem mesmo pra mim! Falava muito e reclamava!!! Mas sempre com razão, devo admitir. Quando eu demorava pra voltar então? Era obrigada a ouvir um sermão... Mas também era muito amor. Um amor desesperadamente apaixonado por mim. Tudo se resolvia com um passeio no parque. Lá ela se realizava: corria como um foguete e fazia amigos. Não tinha um cão que ela não convidasse à brincar: não se importava se fosse de rua ou de raça, contagiava a todos, fazia os donos soltarem as guias e todos corriam livremente pela grama... Parecia mágica. Parecia não, ela era mágica. Não atoa me cativou, cativava a todos. Velhos, adultos, crianças e cachorros, não havia quem não parasse para olhar e comentar: "Como ela corre!" (no caso os cães comentavam com os olhos atentos e as orelhas em pé, tal como o rabo). Eu tenho consciência que não fui a melhor mãe. Passeei menos do que ela precisava, brinquei menos do que ela gostaria, dei menos banhos que devia e certamente a deixei muitas vezes sozinha. Ela por sua vez, me fez companhia nos momentos em que mais precisei. Compartilhou comigo os momentos mais difíceis e solitários que passei na vida. E momentos bons também. Me deu muitas alegrias, arrancou de mim muitas risadas, mesmo quando a vida não estava sendo fácil. Me fez sair da cama várias vezes (quando nada mais faria), nem que fosse para levá-la pra fazer xixi/cocô. Me deu muito amor e carinho e me lembrou o significado do amor verdadeiro, amizade, lealdade... Foi minha companheira, quando todos os outros que me amavam estavam longe. Viajou por horas dentro de um caminhão de mudança por mim. Fez amizades com seus irmãos, que até então não conhecia. Se adaptou à matilha e aceitou na boa dividir a mãe. Ganhou um novo lar com um quintal grandão pra correr, e correu, correu muito. Até que um dia ela se foi. Se por maldade humana ou acidente, nunca saberemos. Mas mesmo fraca ela me esperou. Esperou eu chegar em casa. Então eu a pedi, implorei, para que não fosse, esperasse eu levá-la ao médico. E assim o fez, resistiu bravamente por todo o caminho, apesar da dor intensa que estava sentindo. Chegando na clínica ela se foi, mas sei que se esforçou até o último segundo pra não me deixar... Seu último suspiro aconteceu quando a coloquei na mesa do médico, ou seja, quando saiu dos meus braços.
Seu nome era Amora. Quando nos conhecemos era época da fruta, todas as amoreiras do ceasa estavam carregadas. É um nome divertido, alegre e que remonta à amor no feminino. Mas na verdade, sem eu saber, escolhi esse nome por causa de uma amiga muito querida que tive na infância: uma amoreira enorme que vivia carregada e morava no meu quintal. Eu vivia trepada em cima dela, comendo amora do pé... Meus pés viviam roxos pois era tanta amora no chão que a gente acabava pisando (eu vivia descalça), que por mais que esfregasse não saía no banho. Debaixo de sua sombra eu brincava com meu irmão e primos. Mas quando meus pais ampliaram nossa casa ela foi cortada. Existia outro pé de amora no quintal, mas esse sempre foi mais tímido, meio sem vida. Este permaneceu mas nunca deu muitos frutos como a outra. Quando a Amora se foi, fiz questão de enterrar seu corpinho no pé dessa amoreira. Isso foi em abril. Esse ano, apesar da seca, a minha amoreira está carregada como nunca! Já chorei muito e praguejei, não entendia o porque dela ter ido tão nova, justamente quando estava sendo feliz e tento espaço pra brincar como sempre quis! Ao colher uma amora do pé finalmente eu entendi, de repente a ficha caiu: ela não me deixou, foi sua força e alegria que encheram a árvore de frutos!
Amanhã, dia 18 de setembro de 2016 faz dois anos que adotei a Amora. Mas não tenho ideia de quanto tempo faz que ela me acompanha e cuida de mim (em espírito, em forma de árvore, de cachorro, etc...). Obrigada Amora. Te amo <3 <3

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