segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Retratos de Cuba: embargo, juventude e revolução diária

Apesar de mudanças implementadas pelo governo, país ainda sofre com bloqueio. Nos últimos dois anos, Cuba é alvo de uma série de mudanças internas intensas. O governo do presidente Raúl Castro estimulou a demissão voluntária de 178 mil funcionários públicos, autorizou atividades privadas em mais de 170 profissões, permitiu a abertura de lojas e mercados, além da compra de computadores pessoais. Mas o mesmo bloqueio econômico que levou Castro à abertura é responsável pelos impedimentos para a execução dessas medidas.

O impasse entre o planejado e o resultado obtido está em todo o país. Nas praças e jardins, acumulam-se trabalhadores desocupados que tentam aproveitar as horas livres, conversando ou apenas deixando o olhar perdido. Não há dados oficiais sobre o percentual de desemprego, mas as pessoas se queixam da falta de oportunidades.

Muitos cubanos se oferecem aos turistas como guias informais e até companhias para, em troca, receber pagamentos. A história do médico intensivista Juan Pablo Luis é comum a muitos cubanos. Ele abandonou a profissão para ser taxista. Segundo o médico, a opção, “bastante dolorosa”, foi tomada depois que o filho, de 11 anos, nasceu e ele viu a situação ficar mais difícil. “Sonho todos os dias que estou trabalhando na minha profissão. Não gosto de falar sobre isso”, disse.

O diretor do Centro de Investigações da Faculdade Mundial e professor adjunto da Faculdade de Economia da Universidade de Havana, Osvaldo Martínez Martínez, defendeu que apenas o “fortalecimento regional” pode vencer a “pressão” exercida pelo embargo econômico sobre Cuba.  Mas segundo ele, os países desenvolvidos atuam para evitar esse fortalecimento. De acordo com professor, há um incentivo para a “desintegração regional”.

“Há um esquema de 'desintegração regional' que tende a vincular [de forma dependente] a América Latina aos Estados Unidos e à Ásia. Este tipo de vínculo me parece que tem mais de desintegrador do que de integrador”, afirmou Martínez. “O ideal seria a imprensa defender essa integração com elementos de solidariedade, de combate à pobreza e à desigualdade social. A integração é um grande tema para o futuro.”

A desintegração citada pelo professor pode ser vista nas ruas de Havana. Nos mercados e lojas, há poucos produtos à venda. Garrafas de água e papel higiênico são produtos raros, assim como a carne de boi e variedades de verduras e frutas. As batatas fritas, em lata, vêm da Malásia. A Coca-Cola é produzida no México. Em média, uma lata de refrigerante sai a Cu 1,5 (US$ 1,5) - a moeda oficial cubana para estrangeiros - e a de batatas fritas a Cu 3 (US$ 3). Faltam água e energia com frequência na capital cubana.

Juventude entre a revolução e a expectativa - Jovens vestidos com roupas moderníssimas, brilho nos jeans, tênis de último tipo e unhas cuidadosamente feitas misturam-se a cartazes com os rostos de Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos dos tempos em que lideraram a Revolução Cubana, em 1959. A juventude de Cuba do século 21 parece guiada pela expectativa de mudança, mas ainda é rodeada pelas incertezas que cercam essas perspectivas.

Independentemente dos avanços da tecnologia, os jovens cubanos ainda se apegam às antigas tradições e não escondem suas crenças, como na la santería - religião de origem africana que se assemelha ao candomblé, cultuando os orixás, homenageando os antepassados e com ritos de incorporação.

Segundo os jovens, a abertura política permitiu que todos se sintam mais à vontade para professar sua fé. Em Cuba, é comum que nas casas, a exemplo do Brasil, tenham quadros com imagens católicas e de orixás. Mas as dificuldades econômicas afetam também os cultos religiosos.

“É muitíssimo caro se preparar para a Santería. É necessário comprar várias coisas que nos mandam e por causa do momento, de restrições, que vivemos no país, isso fica mais caro ainda. Então espero um momento melhor”, disse a garçonete María Peña, referindo-se ao adiamento de seu ingresso como filha de santo. “Agora tenho um bebê, então tenho mais gastos.”

Cuba lembra revolução diariamente - A Revolução Cubana, que teve seu ápice em 1959, é lembrada diariamente no país. O processo de combate ao governo de Fulgencio Batista, ligado aos Estados Unidos, durou seis anos. Cada detalhe dessa história é mantido constantemente na memória dos cubanos por meio de cartazes e nos meios de comunicação – televisão, rádio e jornais.

Aos 73 anos, o segurança Guillermo de León tinha 18 quando integrou a campanha de divulgação, publicidade e arrecadação de recursos para ajudar os “companheiros guerrilheiros”. Com os olhos brilhantes, de León  lembra os esforços feitos para enfrentar o que chamou de “opressão norte-americana”.

“Tenho muito orgulho do meu país. A educação é nossa conquista maior”, disse ele. “Lembro do medo que tínhamos de tudo, na época da ditadura de Batista, agora todos são livres. Quando olho Cuba hoje, vejo que o imperialismo, apesar de sua fortaleza, não conseguiu nem conseguirá nada com a gente. O povo resistiu e resistirá sempre. Não voltaremos ao capitalismo a não ser que nos eliminem, digo, a todos os cubanos.”

Há imagens dos líderes da revolução e palavras de ordem espalhadas por cartazes, outdoors ou simplesmente pintadas em paredes. “Revolução é não mentir jamais. Nem violar os princípios”, diz um dos cartazes. “Não ao bloqueio”, informa outro, referindo-se ao embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, em 1960, em reação à revolução em Cuba. 

No último dia 26, os cubanos comemoraram os 58 anos da revolução. Nas janelas e portas das casas, lojas e instituições estatais cartazes saudaram a data. Dias antes houve celebrações pelo aniversário de 228 anos de vida de Símon Bolívar - o líder da libertação e autonomia das colônias espanholas - lembrado como exemplo permanente de resistência contra a opressão.

Por Renata Giraldi, da Agência Brasil.

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