sexta-feira, 27 de novembro de 2015

#meuamigosecreto




"Sentadas na mesa de um bar em São Paulo, Djamila Ribeiro vira para mim e outras mulheres negras e diz ''Nessa discussão sobre a solidão que certas mulheres sofrem, chegou o momento de pararmos de nos pautar enquanto preteridas e de começarmos a nos colocar enquanto mulheres que não irão se sujeitar a certas situações nos relacionamentos''.
Essa afirmação tem estado na minha cabeça desde então, porque, sem eu ter percebido, esse fator <sempre> foi determinante em minhas relações ou nas relações que tentei construir.
Nas vezes dei block em rapazes no Tinder, nas inúmeras vezes que recusei rapazes que queriam que eu matasse suas curiosidades, quando acabei meu último namoro por um ciúmes excessivo e por uma chantagem emocional constante, quando aviso que não gosto de me sentir cobrada e/ou ceifada da minha liberdade.
Um novo olhar sobre a solidão que eu vivencio e que outras mulheres também vivenciam está posta:
Sozinhas porque eles muito bem sabem que não iremos nos submeter a ser submissas, a ser violentadas em um relacionamento abusivo e de não termos voz.
Eles possuem medo. Medo da possibilidade de se ver de frente a uma mulher empoderada, dona de si, dona de suas narrativas e que exclui qualquer possibilidade de estar com um homem que reproduza suas "machulências", como dizem minhas amigas mais intimas.
No fim, mainha continua coerente ao me dizer que "Antes só que mal acompanhada"."



A uns meses atrás me deparei com um assunto que até então era novo para mim: a solidão da mulher negra. Eu nunca tinha parado para pensar, mas quando li percebi que faz todo sentido. Quem se interessar vale a pena dar uma pesquisada pois o tema é bem pertinente.

Mas só a alguns dias, quando li o texto acima, foi que me dei conta... sabe quando você sempre soube algo, mas aquilo tava ali meio escondido de você mesmo e de repente, pimba! Cai na sua cabeça. Foi como a Maria disse: "sem eu ter percebido, esse fator <sempre> foi determinante em minhas relações ou nas relações que tentei construir."

Não sou negra. Por mais que eu me identifique com todos os tipos de causas que envolvem pessoas sendo injustiçadas, descriminadas, etc... Nunca irei sentir na pele (pelo menos não nessa vida) o que uma mulher negra sente e passa todos os dias. Acho que ninguém melhor do que quem vive para falar do tema. Eu só leio e aplaudo. Mas sou mulher e vou falar do que eu sei, vivo...

A questão é que a mulher ainda tem muito pelo que lutar na sociedade... Se antes o objetivo era muito claro, pois não tínhamos direito a nada, hoje é tudo muito mais subjetivo e disfarçado. Por exemplo, eu ouço falar de relacionamentos abusivos. Já li textos interessantes sobre o tema, explicando o que é e tal. Mas as pessoas falam como se eles fossem exceção. E o que eu vejo é que exceção mesmo é quando um relacionamento não é abusivo!

As pessoas acham que abusos são apenas os casos extremos de agressão física. Mesmo esses ainda são muito ignorados e aceitos na sociedade. A vítima se torna culpada e o agressor vítima. "Apanhou do marido, algo deve ter feito, aquela vagabunda!" ou "Não adianta chamar a polícia, daqui a pouco tá junto de novo, gosta de apanhar". E o mais triste é que a gente ouve isso da boca das próprias mulheres! 

Se pra violência física é assim, aí você entende porque a violência psicológica nem é citada, ou é tradada como exceção ou algo menos sério...

Nada me tira da cabeça que quase todos os relacionamentos são abusivos, em menor ou maior gral, salvo exceções. E isso acontece porque ninguém se atenta para isso, não se fala sobre, não é visto como um problema real. 

As mulheres são criadas cada vez mais para serem independentes. Eu mesma cresci ouvindo da minha vó (que é dona de casa, sem estudos e sem profissão) e da minha mãe (que é professora mas só estudou porque correu atrás por conta própria) para eu estudar, ter uma profissão, trabalhar para não precisar depender de homem financeiramente. Isso é ótimo. O problema são os homens.

Mesmo depois de todas as conquistas das mulheres os homens ainda tem aquela visão de que somos propriedades deles. Basta estar num relacionamento que já começa: "não aceito que você tenha contato com ex"; "isso não é jeito de mulher falar"; "essa roupa tá curta"; "eu não quero ir e você também não vai". Chantagens emocionais de todos os tipos: "esse passeio com suas amigas é mais importante que nosso amor?"; "se você for estará solteira"; "num relacionamento as pessoas tem que ceder"... Nesse caso, só a mulher é que tem que ceder sempre... 

E assim vai, quando você se dá conta, alguém que você conheceu "ontem" está ditando o que você pode ou não fazer da sua vida. Quando cai a ficha você está lá fazendo coisas que nem curte tanto (ou nem curte nada) só para agradar alguém e deixando de fazer tudo que realmente gosta. Pior: você percebe que está tentando se tornar alguém que não é para se moldar às expectativas que o outro criou de você que quase sempre são de moça boazinha, educada, fina, paciente, compreensiva, amorosa, submissa, sem vontade própria, 100% disponível para fazer o que ele quiser na hora que quiser com você. Ah, mas para não dizer que os machos não tem uma dose de modernidade, hoje em dia eles aceitam dividir a conta numa boa rsrs...

Nesse dia que li esse texto compreendi e aceitei minha solidão. Não adianta me colocar no papel de coitadismo do tipo: "ninguém me quer do jeito que eu sou". É verdade. Para receber carinho e "amor" tenho que ceder à pressões psicológicas, abrir mão da liberdade, me anular... Mas não adianta chorar. Isso não vai mudar a realidade. O fato é que pouquíssimos homens estão preparados para lidar com mulheres empoderadas, que se conhecem, sabem o que querem e o que não querem, que não aceitam ser podadas e não mudam seu jeito de ser para agradar ninguém. 

O erro não está em nós sermos do jeito que somos, como a sociedade a todo tempo tenta nos convencer. O erro está em aceitar que homem é assim mesmo e que temos que nos sujeitar a tudo para ser uma boa esposa, namorada... Pois isso é o que esperam de nós, né? Podemos trabalhar, podemos estudar, mas se não nos casarmos um dia e não tivermos filhos... Ah não, aí não temos valor...

E nós, inconscientemente reproduzimos esse pensamento em nossas vidas. Eu mesma, achava que precisava de um namorado pra ser feliz. Sofri em relacionamentos abusivos até perceber que precisava me amar. Tive todo um processo de auto conhecimento, amor próprio e empoderamento. Decidi que só daria uma chance para alguém que me valorizasse. Mas percebi que mesmo aqueles que se dizem românticos na verdade só querem alguém que caiba naquele modelinho que citei antes. Foi aí que me dei conta de que se não quisermos viver esse tipo de relação, que é a regra, temos que aceitar a solidão e ter consciência de que as exceções existem, mas são exceções... 

Ficar só é uma forma de resistência. É não aceitar o machismo velado. Ao contrário do que diz o popular, não é por causa de uma linguiça que vou levar o porco inteiro (me desculpem os porcos).