sexta-feira, 8 de abril de 2011

Chacina em Realengo e o Retrato da Sociedade

Não adianta. Pode passar nos jornais todos os dias, as pessoas podem dizer que já virou comum... Eu me revolto e me entristeço profundamente sempre que vejo uma situação de barbárie como essa que aconteceu ontem em em uma escola municipal em Realengo, zona oeste do Rio.
Alguns ex-colegas de Wellington disseram que ele sofria de bullying  na época do colégio por ser muito calado e aparentemente apresentar algum distúrbio. Um ex-colega de trabalho confirmou que ele era realmente muito reservado, pouco interagia com as pessoas, parecia ser autista.

Fato é que ninguém esperava que o rapaz tímido e excluído reagiria dessa maneira. Voltando ao colégio _ em que provavelmente sofreu muito por ser diferente_ alguns anos depois e fazendo uma verdadeira chacina. Dizimando inocentes, adolescentes que não fizeram parte de sua turma.
Para todos Wellington não representava perigo algum, era apenas um cara esquisito. Essa é a mesma visão de pessoas que acham que bulling é apenas uma brincadeira de criança, uma palavra que está na moda.
A palavra pode até estar na moda agora mas a humilhação, brincadeira de mal gosto, violência física e verbal, exclusão e intolerância entre crianças e adolescentes dentro dos colégios é coisa muito antiga. Falar que criança é um ser inocente é uma grande inverdade... Crianças podem ser muito cruéis umas com as outras. Elas não tem pena do coleguinha que ninguém gosta. Elas querem ser aceitas, então preferem ajudar a bater do que se juntar ao grupo dos que apanham. Riem da tristeza do outro, de deficientes físicos, colocam apelidos preconceituosos. Esse tipo de comportamento parece estar incrustado na nossa cultura. Deve ser essa mania de achar que é brincadeira... Não precisa corrigir, fulano só estava brincando!

A questão religiosa...

Na carta que Wellington deixou fica evidente que ele seguia uma linha religiosa fundamentalista, principalmente ao demonstrar preocupação com quem tocaria seu cadáver, exigindo que fossem pessoas castas. Disseram que ele era muçulmano, mas se fosse não teria mencionado a vinda de Jesus para despertá-lo “do sono da morte para a vida”, referindo-se à crença cristã na ressurreição dos mortos na segunda vinda de Cristo.
"Desprovido de senso crítico, um fundamentalista religioso é capaz de nutrir ódio, preconceito e discriminação contra  grupos que professem religião ou ideologia diferentes da sua, ou que pertençam a outra etnia. Tais características são encontradas tanto em grupos fundamentalistas islâmicos, quanto cristãos.";escreveu Hermes Fernandes ontem, em seu blog.
Faça minhas as palavras de Hermes quando ele diz: "Espero que este episódio ocorrido em Realengo não seja presságio de que mais um vício da sociedade americana desembarcou em terras tupiniquins. Já temos violência demais. Não precisamos de mais uma categoria."; referindo-se a semelhança com vários casos norte-americanos em que jovens cansados de ser humilhados se rebelam contra seus colegas agressores ou contra quaisquer pessoas da sociedade.

Fica aquele impasse: afinal, Wellington é vítima ou vilão dessa história? Na minha opinião, os dois. Se ele tinha mesmo algum distúrbio mental a falta de tratamento somada a uma vida inteira de agressões piorou e muito a situação. Acredito mesmo que normal ele não era, apesar de ser praticamente impossível definir o que é ser normal. O que ele fez foi imperdoável. Mas será que podemos culpa-lo totalmente? A sociedade também tem sua parcela de culpa, parcela essa bem grande, diga-se de passagem... Culpa por não criar crianças, mas agressores em potencial... por não proporcionar um tratamento psicológico decente pra esse menino enquanto ainda havia tempo... por permitir uma religiosidade muitas vezes preconceituosa, excludente, maluca!

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3 comentários:

  1. Vc tem toda razão. Fiquei surpreso ao procurar na internet e não achar praticamente ninguem que tentasse entender o que se passou com Wellington. Toda a sociedade só destilou ódio e incompreensão absoluta, como sempre faz com quem é diferente, pobre, feio... Não que o que ele tenha feito seja justificável, mas a sociedade tem grande parcela de culpa pelo que aconteceu.

    JK

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  2. Olá Ellenzita, adorei sua opinião sobre o assunto. Parabéns.
    Mas penso diferente e seria longo demais pra escrever... prefiro não me alongar pois tenho pouco tempo pra net hoje mas em outra ocasião conversamos,ok?
    saudades de vc tb viu...como estás//?
    quais as novidades?
    Aprendeu a mexer no facebook? Estou mais por lá.

    bjoooo

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  3. Ellen,
    Deixo a manchete de um jornal pernambucano que resume a tragédia de Realengo: "12 mortos e 190 milhões feridos".
    Lamentável!
    abs

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